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Maria não vai com as outras.

opiniões pessoais sobre tudo um pouco.

Maria não vai com as outras.

opiniões pessoais sobre tudo um pouco.

12
Mar20

A validade dos portadores de útero.

Patrícia Pereira

 

Por favor, parem de questionar as pessoas com útero quando vão ser mães. É das merdas que mais me tira do serio. O facto de eu vir equipada com útero não é justificação para esse tipo de inquisição. O valor de uma mulher não está agregado a capacidade de engravidar.

Esse tipo de questões ainda me tira mais do serio quando vêm de mulheres. As que dizem “vais mudar de ideias”, em relação a minha vontade de não ser mãe. Que alias tenho desde a primeira menstruação. Ou usar o exemplo dos filhos e dizer “o quão realizadas se sentem por ter tido filhos.” Eu sinto-me realizada que chegue, obrigado. Tenho a minha realização académica, que me deu trabalho que chegue e me deixa orgulhosa de mim mesma. Tenho os meus problemas bem ajustados, apesar de anos passados com lutas com depressão e ansiedade. Estou bem realizada ao ponto de conseguir passar tempo de qualidade comigo mesma a desenhar, escrever, ou ouvir podcasts de forma compulsiva.

Acho que se de facto se algum dia mudar de ideias em relação a maternidade (o que não me parece), não vai ser para me sentir mais realizada. É apenas um processo biológico, o qual já nascemos com equipamento, não requer propriamente qualquer forma de exercício cognitivo. Não é uma forma de realização em geral, é apenas em muitos casos a necessidade de deixar o cunho pessoal na terra, moldando um ser humano aos nossos genes e hábitos. É em parte um exercício narcisista, em parte um exercício meramente evolutivo e da necessidade biológica de propagar a raça humana.

Sei que é daquelas questões que normalmente aflige mais as fêmeas, porque a sociedade patriarcal em que vivemos ainda cinge muito o valor de uma mulher a isso. Por isso torna-se necessário nós, fêmeas, versar o quão somos mais que a nossa capacidade de ovular e garantir a propagação da raça humana. E claro as fêmeas que se sentem realizadas com isso: bom para elas. Agora deixem as outras fêmeas em paz.

06
Mar20

Sobre a falta de curiosidade.

Patrícia Pereira

Porque metade das boas ideias surgem de conversas de café? Bem adiante. Durante muito tempo havia quem se queixava que o problema das pessoas é a falta de acesso a informação. Mas a minha constatação é mesmo que é a falta de curiosidade de tantas e tantas pessoas. Não têm vontade de explorar mais do que o seu pequeno universo. Isso gera um problema grande: a incapacidade de questionar coisas para além do seu pequeno universo. A capacidade de gerar argumentos para demonstrar a validade da sua opinião. E não tem nada a ver com sítios grandes ou sítios pequenos, não é um determinismo da localização geográfica, como muitas pessoas acham. Actualmente com a internet não há a meu ver desculpas.

De alguém que passou anos de vida a trabalhar a falar com pessoas, é das coisas que mais me assusta. É fácil encontrar essas pessoas, basta usar termos inquisitivos. Normalmente o resultado final é insultos, ou a repetição de uma frase de forma veemente, sem qualquer construção de argumento para justificar essa frase. E é algo bem normalizado, e com uma grande representatividade na população. Essas pessoas tem muitas vezes igual acesso à informação, como tantas outras, apenas escolhem não exercer esse direito. Ou muitas vezes nem sequer lhes passa pela cabeça o fazer porque vivem no seu universo pequeno, com fronteiras bem definidas. É algo que a mim me faz confusão, especialmente de alguém que cresceu num sítio pequeno, com pais pouco escolarizados, mas com uma mãe que devora documentários. Embora as fronteiras da sua vida estejam restritas a poucos km, a mente dela viaja a todos os confins do universo. E isso para mim têm mais valor que dinheiro.

13
Fev20

Sobre gerir Emoções

Patrícia Pereira

Olá blogue,

Não me esqueci de ti.

Nestes últimos tempos estive a gerir emoções.

Emoções de ter tido coragem para me despedir. É importante estar atento aos sinais de uma relação abusiva laboral. Os sinais de alerta incluem maus tratos verbais constantes, pressões diárias para levar ao despedimento. Foi o que fiz, não olho mais para trás. Dei seis anos da minha vida a uma empresa que não dá valor a pessoas. Espero ser a última vez. O desemprego é para já algo que me assusta, mais ainda só passou um mês, para já ainda esta tudo ok.

Emoções da entrega da minha tese. Foi uma experiencia positiva, tirando os maus tratos verbais que tive na discussão da minha tese, por homens com egos feridos. É recorrente ouvir-se como argumento para as mulheres para não serem tão emocionais. Tive quase para dizer isso a um homem adulto, presidente do meu mestrado, quando o mesmo gritou comigo na apresentação, perante o ar incrédulo do arguente e do meu orientador. Certamente se quisesse uma sessão de masoquismo, não iria certamente buscar numa tese de mestrado. No entanto foi o que tive.

Emoções de lidar com problemas de saúde, de familiares e pessoais. O final de dois mil e dezanove não foi em si fácil, o início de vinte vinte esta ainda pior. No entanto pela primeira vez em muitos meses consigo dormir descansada, sem pânico, stresse ou ansiedade. É muito mais fácil gerir situações difíceis com clareza mental. Não foi possível no final do ano passado, está a ser possível agora. E para já é a isso que me agarro.

Agora vou só ali procurar emprego.

20
Dez19

Melancolia Intelectual.

Patrícia Pereira

Ontem entreguei na minha tese de mestrado. Finalmente. Estranhamente o alívio inicial da ter entregue desvaneceu depressa. De seguida veio um melancolia não sei de onde. Como se tivesse deixado algo a mais de mim naquela tese. Quase como se fosse um filho que andei a gestar durante meses com trabalho e paciência, e agora no final é como se o tivesse dado para a adoção, e em mim apenas tenha ficado um vazio.

Dei por mim aborrecida com as coisas que normalmente me dão prazer fazer, como ver séries, bordar, ler. E a contemplar o vazio com senão soubesse de onde ele veio e o porque.
Ironicamente houve muitos momentos de dor de cabeça e frustração na tese. Momentos em que me culpei pela escolha do tema, ou porque o meu orientador me respondeu torto. No entanto este vazio apenas pode significar, que como tudo na vida, as vezes só percebemos quando fomos felizes numa situação quando não estamos mais nela.

Ainda me falta defender a tese, não é o fim dela. No entanto sei que depois vou dizer adeus a esta de forma definitiva. E sei que vou ter de arranjar outro desafio intelectual para me entreter, porque no fundo é esse o porque da minha melancolia. Foi no fundo a grande elação desta tese, conhecer um pouco mais de mim e das coisas que me dão vida.

08
Nov19

Escrito no caderno, transcrito para o digital.

Patrícia Pereira

Uma história trágica de como uma relação de longa dada com a escrita está a esmorecer.

 

Durante anos associei à minha criatividade a minha identidade, como se fosse um laço indestrutível. No entanto chegada aos trinta, e não escrevendo nada de jeito há tempos, não entendo a sua função biológica em mim. Se por um lado a minha criatividade ganhou novas formas, como no ponto cruz ou no Photoshop e Illustrator, a minha paixão pelo texto esta em parte morna - isso é em si uma das minhas crises de identidade. O verbo já não é a minha paixão fogosa e não sei o que fazer com uma cabeça cheia de retorica. Se me ensinei a viver com esses princípios e se através deles encontrei alguma cura para a mágoa, para o meu medo de existir. Anos de preparação para isso deixaram me inapta para outras realidades, outras variações.

Claro que posso culpar o digital, ainda me recordo de quando escrevia em papel e não se apagava nada, pelo menos na minha escrita com caneta. No digital é mais fácil a censura, talvez seja esse o problema. O digital é como o meu cérebro, corrige antes de verbalizar. A vida real é como um papel escrito a caneta – nada se apaga permanentemente. E talvez tenha de substituir novamente o digital pelo papel, para fazer as pazes com a escrita e para poder saber quem sou novamente. Para atingir o realismo necessário que pretendo na minha escrita, sem censuras e com emendas visíveis.

Isto para dizer ola blogue. Passou um tempo mas ainda estou cá. Assim como a escrita, com a qual ainda estou casada. Ainda possuo a necessidade de extrapolar da minha realidade para uma realidade irreal, com censura digital. Este texto foi inicialmente escrito em papel, com riscos e letra imperfeita, mas tudo fica mais perfeito e politicamente correcto no digital. Apenas para dizer que voltei a escrever em papel por necessidade. Está é a versão melhorada de uma ideia incompleta, por isso veio aqui parar, para quem a quiser consumir. 

12
Set19

O proverbial nó no cérebro.

Patrícia Pereira

Há algo de divinamente irónico em mim. A minha capacidade cega de acreditar nas minhas capacidades, que me manteve relativamente sã ao longo de alturas muito mais da minha vida. E também a minha capacidade divina para me auto-sabotar. A esta altura do campeonato, isto é, nos meus trinta anos de idade, acho que deveria já ter arranjado forma de equilibrar os dois, de forma a dar prioridade ao primeiro, e renegar o segundo para alturas em que deixaria o cansaço levar a melhor. Infelizmente não. E as vezes culpo coisas sem culpa, apenas para me justificar a mim mesma o porque de a segunda capacidade parecer levar a melhor, na maior parte das vezes.

 

Claro que a resposta anda em parte no facto de eu ter uma curiosidade mórbida por tudo, e num mundo repleto de informação é tão fácil ter acesso a tanta coisa, que o meu cérebro anda há anos num estado de perpétuo multitasking. E é para mim quase impossível concentrar-me só numa tarefa por mais de dez-quinze minutos sem dispersar. (E sim, é possível ter um trabalho em que se fala constantemente com outras pessoas e manter um discurso coerente enquanto se canta mentalmente uma música, ao mesmo tempo que se pensa num artigo que se leu sobre um novo projecto da NASA para colocar mulheres na Lua. Eu sei porque há anos que o faço.)

 

É no entanto difícil escrever uma tese ao mesmo tempo que se tem o cérebro noutra dimensão. E com isto me despeço e volto a tentar agarrar-me a minha tese. Mas sem chegar a nenhuma conclusão decente sobre o raciocínio acima descrito, se é que lhe podemos chamar raciocínio . Claro que aqui lembro-me de uma frase bonita que o meu irmão usa muito quando entramos em conversas mais profundas. Quem pensa demais não é feliz. Talvez seja esse o meu problema, perco demasiado tempo na auto-congeminação. Que por consequência acaba por se manifestar em problemas reais, porque lhes dediquei tempo a mais.

12
Ago19

O flagelo das t-shits de mulher.

Patrícia Pereira

Há dias discutia com uma amiga que trabalha numa cadeia de roupa daquelas multinacionais, o flagelo que afecta as camisolas de mulher. Ela também aborrecida de ver na loja onde trabalha t-shirts estampados de Disney cheias de dourado e prateado na secção de mulher. Nessa mesma secção as habituais camisolas com borboletas, glitter e lantejoulas. Quando a secção de homem da mesma loja tinha uma colecção de camisolas de referências a filmes, que ambas adorávamos. Acabamos a discutir qual o melhor tamanho de homem para comprar sendo uma mulher, tento em conta coisas como ancas e peito e como ficam em diferentes camisolas de cortes masculinos.

A realidade é que nestes saldos voltei a comprar camisolas da secção de homem. Está a tornar-se um ritual. Não só porque não me revejo nas cores e padrões das camisolas de mulher. Como é difícil comprar uma camisola branca lisa que não seja semi transparente na secção de mulher e fácil comprar na de homem. Claro que poderão dizer que isso advém dos meus gostos. No entanto sei que não sou a única nesta revolta. E o que me incomoda mais é que se tradicionalmente as mulheres são as que gastam mais dinheiro em roupa, porque raio as comuns lojas de centro comercial não têm mais opções de camisolas simples, mesmo que tenham todas as outras de glitter, lantejoulas ou borboletas. Porque não há referências a cinema, arte e musica também nas nossas t-shirts, quando nas de homem são aos pontapés. Acredito que as mulheres consomem tanta ou mais cultura que os homens. Porque isso não se reflecte na nossa roupa?

Claro que a resposta pode ser encontrada em outras lojas de roupa, mais dentro do conceito de slow fashion, no entanto o comum do mortal não tem orçamento para tal. E eu para já tenho outras prioridades para o meu orçamento de que queimar um dinheirão numa peça de roupa. Mesmo comprando cada vez menos, como tem sido no ultimos anos, umas cinco peças por ano no maximo. Logo para já enquanto o panorama não mudar, restam me sempre as t-shits de homem.

27
Jul19

Pose, a serie – uma educação.

Patrícia Pereira

Tento educar-me sobre coisas que não conheço, realidades diferentes da minha. É um dos motivos pelos quais gosto de ver documentários, mas também series e filmes. E a serie Pose foi uma educação para mim. Sendo eu um cliché branco e hétero, a experiencia de uma mulher negra e trans num país tão racista como os EUA numa altura da crise da SIDA, é algo difícil de conseguir imaginar. Mas com a serie Pose não é preciso imaginar. Embora as personagens sejam ficção são um reflexo de um grupo de pessoas que de facto existiu, que viveu de uma forma marginalizada e que arranjou forma de celebrar a sua identidade e adquirir uma nova família, quando a própria os rejeitou.

 

Numa altura que há tantas series sobre o mesmo Pose distingue-se por isso. Fala de algo que não é mainstream, de pessoas cujos historiais não são contadas porque são minorias que sempre viveram à margem. Mas o brilhante é como a história toca em tantas coisas que são comuns a todos os seres humanos, independentemente da cor, género ou orientação sexual. Chorei e ri a ver esta serie. E acho que é daquelas que muita gente não está a ver, dado que o tema a primeira vista não cativa muita gente. Mas já anda pela Netflix. Fica aqui o trailer.

 

 

 

24
Jul19

Vicissitudes de trabalhar num call center.

Patrícia Pereira

Gostava de poder conseguir exprimir toda a minha frustração das últimas semanas em poucas palavras mas não consigo. Nem sequer vou tentar. Dei por mim a tentar analisar todas as más decisões da minha vida que me levaram a chegar a este trabalho com o qual me sustento e que no espaço de um mês passou de tolerável, para algo que me dá crises de ansiedade. E faço-o porque sinto-me presa num contrato de trabalho efectivo, numa altura da minha vida em que não estava sequer nos meus planos arranjar outro trabalho temporário: não só porque quero tentar arranjar algo mais motivador e dentro da minha área ao concluir o mestrado; também porque me aguentei a trabalhar num call center ate agora pensei que me tinha tornado já imune.

 

Ninguém vai parar a um call center em virtude de vocação. É uma questão de comodismo laboral, um trabalho com horários flexíveis que se adaptam a faculdade e outros part-times. É uma realidade que muitos dos meus colegas se revêm. Foi o meu caso, e dado que no início fazia algo diferente e minimamente interessante, dava apoio técnico, mesmo com os seus altos e baixos, deixei-me ficar. Na altura estava a concluir a licenciatura e faltavam duas cadeiras e foi uma questão querer adquirir independência financeira e compensar o atraso do final de curso aos meus pais. Quando conclui o curso e nada apareceu na área deram a possibilidade de fazer full time e lá me encostei. Os anos passaram e o contrato deixou de ser tão temporário. Quando decidi voltar a estudar deixaram-me voltar a part-time. Entretanto a empresa para a qual fazia suporte técnico rumou a outro cal center, há coisa de dois meses. Eu, juntamente com os meus colegas fui absorvida para uma campanha de telemarketing. E basicamente aí começou o meu martírio, o martírio do universo das vendas. Nem me quero alongar muito no porque, dado que é uma realidade difícil de explicar para quem está de fora e porque nada construtivo sairia disso.

 

O fruto da minha miséria tem sido gerir as minhas emoções no trabalho que estou a detestar fazer. Isso é gerir o facto de arranjar outro part-time agora que me desse as mesmas condições de trabalho seria impossível, especialmente assim de um dia para o outro. E o faco de estar a lidar com o stress da minha tese se ter arrastado para Setembro e sinto que isso deixou a minha vida no limbo. Sei que analisar tudo isto e tentar fazer sentido é provocar uma dor de cabeça em vão. No entanto é algo que me tem tirado o sono. Daí o desabafo. Acredito que não seja a única pessoa com trabalho que me deita abaixo. Acredito em dias melhores, porque eu já os tive, e porque ainda acredito que valha a pena lutar por eles.

 

Logo vou tentar manter a sanidade até Setembro. Depois logo se vê.

19
Jun19

Vitamania, o documentário.

Patrícia Pereira

Quando foi a ultima vez que viram um documentário? Bem eu tento consumir um uma vez por semana, porque sinto necessidade. O meu cérebro é tão esfomeado como eu e não fica satisfeito só com outro tipo de entretenimento como series. A realidade é que a Netflix até tem uma boa parafernália de documentários, e tenho visto muitos lá, mas vi o trailer do Vitamania e fiquei com curiosidade.

 

Disclaimer antes de mais, eu tenho uma tendência de ver documentários voltados para a saúde e educação porque são coisas sobre as quais tenho uma curiosidade mórbida. E este documentário é educativo, na medida que elucida a idealização das vitaminas e os perigos que isso acarreta, derivados a falta de regulamentação das vitaminas. Considero-o no entanto um pouco incompleto, dado que já li o li o livro The Vitamin Complex da jornalista Catherine Price, que têm muita mais informação sobre como as vitaminas fora descobertas e a loucura comercial que isso acarretou. Mas como o livro ainda não está traduzido em português e compreendo que isso possa ser um entrave a muita gente, recomendo este documentário. Dado que sei que muitas pessoas estão mal informadas sobre suplementos multivitamínicos e isso pode causar problemas de saúde.

 

A realidade é que o sumário desde documentário e livro que referi deveria ser, a não ser que esteja para engravidar ou esteja gravida, tenha alguma deficiência comprovada por exames médicos e que não possa ser suprida com alimentação, não é recomendável tomar suplementos. Não caiam em falacias de publicidades.

 

Fica aqui o trailer, se puderem vejam, vale a pena.

 

 

 

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