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A banda sonora da Maria – IDLES.

por Hélia Pereira, em 13.01.19

Musica é algo que amo de paixão. Mas longe vão os tempos em que ouvia trinta álbuns diferentes por mês. Estando nós em dois mim e dezanove o meu subconsciente remete-me para esses tempos e diz-me para começar a ouvir coisas novas. No entanto desde que ouvi a primeira faixa de Joy as an Act of Resistance dos Idles, que não me apetece ouvir outra coisa.

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Desde a primeira audição que dei por mim a apregoar as letras. Odes contra o machismo toxico em Samaritans, ou a discriminação contra emigrantes em Danny Nedelko. Mas outra coisa que me agradou na banda é a postura da mesma, não só pelos ideais que estão presentes nas letras, mas também a opinião dos mesmos sobre coisas relevantes. Por isso deixo aqui uma frase de Joe Talbot , o vocalista da banda, numa entrevista para a Rolling Stone, “Progress in civilized society comes from celebrating differences and never from building walls, it’s about building bridges.”

Termino com Colossus, a primeira faixa do album.  Boas audições. 

 

 

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Medicina desfocada.

por Hélia Pereira, em 11.01.19

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Hoje vim de uma consulta no optometrista. Sim vejo mal. Costumo dizer que não vejo tudo quanto quero, mas sei que esse é o tipo de cegueira que toda a gente tem. A minha nasceu comigo, cresceu comigo e agora come da minha carteira.

Mas desta vez não vim apenas com a factura de uns óculos novos que encomendei. Depois de uma conversa longa com a optometrista, vim com raiva. Raiva que não posso apontar o nome. Raiva que apenas posso transformar em mágoa. Porque ela disse-me que o meu problema de visão poderia não estar tão agravado se tivesse sido operada aos dois anos de idade em vez dos treze. Poderia não ser parcialmente cega de um olho como sou se tivéssemos outro sistema nacional de saúde.

Sei que os meus pais não têm culpa. Durante anos arrastaram-me para consultas duas vezes por ano no oftalmologista. Medico que me dizia que tinha de ser operada em todas as consultas. Medico que me dizia que não poderia ser para já. Os anos foram passando e nada. Os meus pais acabaram por ter de pedir favores a conhecidos para dar uma palavrinha com o médico, que finalmente me operou. Os meus pais fizeram o que toda a gente fazia. A optometrista contou-me de pessoas que tiveram de dar dinheiro ao médico por fora para poder ser operados. Aparentemente aqui é o que toda a gente faz. A alternativa é sair daqui.

Por isso o interior fica pobre. Pobre de dinheiro, pobre de vista. As pessoas que poderiam fazer alguma coisa para mudar só vêm bem ao perto, ao litoral. E ficamos nos de mãos atadas e a ver mal.

A raiva ainda não se foi. E ao ler coisas como a história do senhor Peças, o médico da INEM, ao menos posso canaliza-la para alguém. Só tenho pena é das pessoas que foram directamente afectadas com isso. Eu vejo mal, há quem tenha perdido a vida. Logo ate posso considerar que não estou assim tão mal. Mesmo assim contínuo com raiva, porque sei que tenho de viver com isto, com este conhecimento que poderia ser diferente. Assim resta-me ir mudando as lentes e esperar por dias em que se veja melhor.

 

 

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