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Maria não vai com as outras.

opiniões pessoais sobre tudo um pouco.

Maria não vai com as outras.

opiniões pessoais sobre tudo um pouco.

15
Mai19

Por favor, não alimentem os influencers.

Hélia Pereira

O título desde post é inspirado na expressão “please do not feed the models”. Se bem que a meu ver a interpretação desse título deve ser a letra, ao contrário da dessa expressão. Actualmente vivemos bombardeados de figuras, aka influencers, que existem meramente para nós vender coisas. Especialmente e nós, mulheres. E é fácil perceber o porque de ser a nós mulheres, porque somos invariavelmente mais susceptíveis, com toda a pressão social para corresponder a uma certa expectativa de imagem. E é cada vez mais um flagelo a meu ver, especialmente no que toca a questão da dermocosmética e alimentação. Mas este post para já não é sobre a alimentação, mas sim sobre a dermocosmética.

 

Ainda me lembro de ler blogs de moda na minha adolescência. Na altura eram essencialmente estrangeiros e ainda não estavam monetizados como estão hoje os posts do instragram. Seguia atentamente na altura algumas bloguers que usavam marcas de farmácia e de supermercado e a opinião delas era sincera, falavam do bom e do mau e do porque de usar produto x ou y, sem nenhum disclamer de #ad ou “cedido gentilmente pela marca”. Hoje em dia é difícil acreditar na opinião de alguém quando são convidadas a testar e a dar a sua opinião sobre um produto, ou tem o belo do hashtag de ad, ou a expressão de ou “cedido gentilmente pela marca”. Porque o único motivo de terem a oportunidade de testar um produto e dar a sua opinião sobre o mesmo é o facto de haver uma audiência que provavelmente vai se sentir directa ou indirectamente coagida a comprar esse mesmo produto. E já nem vou falar daqueles casos flagrantes em que nem seque usam o produto mas apenas o publicitam.

 

E o que me preocupa mais e que há pessoas que caem nessas falacias, normalmente acabam sempre por ser as pessoas mais fragilizadas, normalmente mulheres com baixa auto-estima. As mulheres tendem a estar em contacto com mais químicos do que os homens em geral, pela preocupação desmesurada com a aparenciae isso não é de todo benéfico para a saúde. Muito menos a questão das embalagens, mas já nem vou por ai. Incentivar o consumismo desmesurado é prejudicial em todas as formas. E a realidade é que não há nada que resulte a cem por cento contra o envelhecimento, não há creme anti-rugas que nos valha. E a saúde da pele está essencialmente relacionada com a alimentação, consumo de água de forma suficiente, sono, hábitos de exercício e ritmo de vida essencialmente.

 

Há dias li um artigo muito interessante na Vice, intitulado de The Rise of the Minimalist Skincare Routine. Essencialmente fala de pessoas que usavam demasiados produtos para o rosto e como isso trazia mais irritação para a pele do que benefícios e como após uma consulta no dermatologista passaram a usar menos. Revi-me muito nesse post porque eu já o fazia desde sempre, mas usando o velho ditado da minha mãe de “tudo o que é demais é erro”. A realidade é que uso esse ditado para muitas das coisas do meu dia-a-dia e assenta que nem uma luva. Uso produtos para a pele, não vou mentir. No entanto não compro cremes de quarenta ou mais euros publicitados por influencers. Sim porque as influencers não são mais nada senão outra forma de publicidade.

 

De manha e a noite não perco mais do que cinco minutos no espelho. E parte desse tempo é a escovar o cabelo ou lavar os dentes ou então a perder um tempo a apreciar-me ao espelho, porque faz bem a alma olhar a nos mesmo e pensar “coisa linda”. Uso produtos de farmácia, de supermercado e de marca branca. No rosto ponho pouca coisa e tiro ainda menos, dado que não uso maquiagem, e a minha pele nunca esteve melhor. Já começam a aparecer as rugas de expressão em algumas zonas mas faz parte da vida. E eu abraço-as, assim como a sardas, a celulite e estrias.

 

Acredito que nós, mulheres não devemos seguir o que sociedade nós impõe e perder tanto tempo ao espelho, quando pudemos usar esse tempo para coisas mais construtivas. Os homens não o fazem e por norma são muito menos miseráveis que nós e com melhor auto estima. O amor-próprio não se compra nas farmácias e perfumarias. Aí apenas se alimenta as influencers.

06
Mai19

Mulheres contra Mulheres.

Hélia Pereira

Se há coisa que quem me conhece sabe que eu digo com frequência é a expressão - "a mulher é um bicho terrível". Não o digo no sentido pejorativo, afinal de contas eu sou uma mulher. Mas no sentido que nós, mulheres, não somos por norma boas umas para as outras. Somos as primeiras a apontar alguma coisa mal nas outras, em vez de nos apoiarmos, na medida em que ainda somos na maior parte uma segunda categoria de ser humano. Não somos um homem branco, que continua a estar no topo da nossa cadeia alimentar.

 

E ontem dei por mim a pensar nisso porque eu por norma tenho um grande amor-próprio. Sou moça de me olhar ao espelho e apreciar o meu corpo por aquilo que é. Apesar das minhas coxas largas já me terem lixado a auto estima anteriormente, dos meus ombros largos também, da minha pele branca e com sardas também. Actualmente vejo cada vez mais o meu corpo como parte da minha identidade. O que me faz semelhante à minha mãe e três irmãs. Todas nos de ombros largos e coxas largas, mas todas nós mulheres fortes, tanto de personalidade como força física. Sou filha de agricultores e aprendi a usar o meu corpo para o trabalho duro, e muito embora quando era pequena detestasse, actualmente aprecio imenso as marcas que esse trabalho deixou no meu corpo. Tenho bastante força física, bastante mais que o meu namorado ate, e não acho que isso faça menos mulher de mim, muito pelo contrário. Embora isso não corresponda ao estereótipo de mulher.

 

No entanto ontem, num almoço do dia da mãe com a família dele tive de confrontar as minhas inseguranças. Porque as mulheres da família dele são muito mais femininas. São mulheres de coxas estreitas e ombros estreitos, ate menos peito que eu. São mais as mulheres das revistas de moda, pequenas e maquiadas e vestidas com roupas femininas e saltos altos. Eu, nas minhas calças de ganga, camisa de corte masculino, mocassins e zero maquilhagem senti-me uma espécie de aberração. Senti-me observada por elas, como quem reprova as minhas escolhas e espera mais para o irmão, tio e filho delas.

 

E disse-lhe isso a ele. Em parte por vergonha, em parte porque precisava de desabafar, para não deixar que aquele pensamento que lixasse o dia. Se bem que invariavelmente tornou-se o pensamento que dominou o meu dia. Não que as mulheres da família dele tenham feito alguma observação, em parte já se habituaram a minha diferença. Mas olharam da forma que olharam, porque nós mulheres somos formatadas dessa forma. Para nos criticar a nós, para nos criticar-mos umas as outras. Para nós sentir-mos perpetuamente miseráveis. Assim aderimos as modas, de forma a mudar quem somos. Compramos todos os produtos que nós vendem para sermos quem não somos.

 

Hoje acordei mais lucida. Voltei a olhar-me ao espelho e apreciar o meu corpo. Mentalizei-me que não faz bem nenhum continuar com esse ciclo vicioso. E que em vez disso devia amar as minhas coxas largas, os meus ombros largos e fortes, os meus braços e pernas musculadas. Porque é o corpo da minha mãe. É o corpo das minhas três irmãs. Não é um corpo de revista de moda. É um corpo real. Foi moldado por gerações da minha família, de mulheres que trabalharam no campo e que viveram naquele clima frio do norte. Todas pálidas de pele, todas fortes de ombros e coxas largas. E isso é a minha identidade. É a identidade da minha família.  É a identidade das minhas tias e primas. É a identidade das minhas avós. E das mulheres da minha família que nunca conheci. E isso é mais importante que me comprar a outras mulheres com corpos diferentes que foram moldados por situações diferentes de vida.  

 

A elação mais importante que tirei disto foi amar-me. Cuidar de mim, da minha saúde física e mental. É a minha religião actualmente. Custou a chegar a onde cheguei, já tive um ódio enorme a pele que hábito, mas isso foi noutro tempo. Essa pessoa já não existe, felizmente. E por isso posso dar-me ao luxo de ter um momento de fraqueza. Afinal de contas tenho pessoas que me amam e é tudo o que importa nesta vida. E é por isso minha obrigação amar-me a mim.

26
Abr19

Uma ode ao cansaço.

Hélia Pereira

O cansaço é um filho da mãe. Mas ao mesmo tempo é algo que nós trás invariavelmente para o planeta terra e revela por fim as coisas verdadeiramente importantes. Durante as ultimas semanas andei a tratar de mudanças. Mudei de casa finalmente, troquei o T1 no centro da cidade pelo T2 nos arredores e estou convicta que terá sido uma das melhores decisões que poderia ter tomado. Não tive capacidade de escrever, ou vontade ate nos últimos tempos, dado que no final do dia, depois de caixas de coisas e trabalho pelo meio, tudo o que ansiava era por cama, comida e um bocado de tempo para não ter de pensar, e contemplar o vazio da casa antiga, o caos da casa nova.

 

Finalmente esta tudo no sitio. A mobília velha, a nova, as coisas que ficaram e muitas das quais me desfiz nas mudanças. E irónico que uma pessoa apenas tem a real consciência das coisas que têm quando temos de as enfiar em caixas para as mudar de local. Pensei muito sobre sustentabilidade nestes tempos de andar com as tralhas as costas. Pensei muito sobre o que compro, sobre a forma como compro. E no final destas mudanças percebi que menos é mais. Especialmente em coisas como roupa, calçado, loiça. Coisas que por vezes compramos porque é barato, ou porque achamos que precisamos. No final de contas são pilhas de coisas que acabamos de rejeitar no final, quando nos mudamos. Senão nos mudarmos são pilhas de coisas no sótão que não servem para nada, e das quais só nos lembramos de vez em quando nas limpezas.

 

Por isso quando a coisa acalmou e dei por mim com os cheques prendas de anos ainda para gastar e fiz o oposto do que fazia, comprei menos por mais. E não é que eu fosse já uma compradora impulsiva, sempre fui muito moderada nessas coisas, sempre cresci com pouco e a pouco me habituei. Mesmo assim acumulei coisas a mais, coisas que não uso e não servem para qualquer função. E senti em parte vergonha, porque estava a falhar. No entanto no meio da desarrumação e do cansaço fiz paz com isso, paz comigo mesma, e prometi tentar ser melhor.

 

Nesta semana tive tempo, um pouco mais de tempo. Andei a mudar um fecho a umas calças, a apertar umas que me estavam largas, mudei os botões a um casaco que não usava muito por não gostar dos botões. Coisas que estavam a um canto, sem função, que agora têm uma nova vida. Gostava de rematar este parágrafo de uma forma mais bonita mas ainda estou um pouco cansada. A minha criatividade parece ter-se esgotado estas semanas de mudanças. Acredito que vá voltar. Até lá vou reutilizar, reduzir e reciclar.

05
Abr19

Fiz trinta, e depois?

Hélia Pereira

Fiz trinta faz umas semanas. E ao contrário do que antecipava, não foi o fim do mundo. Fez-me bem mais confusão fazer vinte e nove o ano passado. Passei este último ano a pensar em todas as coisas que eu achava que deveris ter feito aos trinta e não tenho. Todas as metas que achava que tinha de atingir, não sei porque ou para quem. A questão é que a vida não é uma corrida, ninguém vive de metas, embora em parte as estabelecemos como motivação. Se ninguém tiver objectivos qual é o sentido de ir trabalhar, estudar, namorar, viver.

 

Não fiz nada de especial nos meus anos. Era dia de semana. O comum do mortal tem um dia bem genérico a uma segunda-feira. Eu tive também, se exceptuar as mensagens e chamadas de amigos e familiares. De resto não fiz festa, não comi bolo, não apaguei velas. Em vez disso aproveite o facto de ter tirado o dia para tratar de aborrecimentos. Vou mudar de casa este mês e por isso aproveitei para tratar de burocracias de contadores para a casa nova. Foi por isso um dia produtivo. Apenas perdi cinco minutos para comprar um novo protector solar de rosto dado o meu actual estar a acabar, e dei por mim de forma inconsciente a escolher um diferente do habitual. Em vez de FPS 50+, FPS 50+ anti-rugas. Ri-me sozinha a olhar para embalagem, o meu subconsciente a pregar-me uma partida.

 

Sei que fiz anos e não cumpri nenhumas metas para este aniversário. Eu não estou a correr contra ninguém, apenas corro contra a minha própria mortalidade, como qualquer outra pessoa. E somos bem insignificantes no universo das coisas. E tenho amigos, família, dois gatos e um companheiro, saúde e energia quanto basta, logo não estou assim tão mal. Há pessoas com vidas bem mais complicadas. Porque raio tinha eu tantas reticências quanto aos meus trinta? Tudo na mesma, apenas mais FPS 50+ anti-rugas.

31
Mar19

Um andar esquisito.

Hélia Pereira

Já alguém fez um comentário sobre a forma como andam? Bem a mim volta e meia acontece-me. Normalmente sempre da mesma forma, “Tens uma forma de andar esquisita”. Bem que eu saiba não existe uma métrica para avaliar a forma de andar. Logo o “andar esquisita” remete sempre para o diferente. As pessoas têm sempre uma opinião sobre o que é diferente. E por isso dei por mim a reflectir nisso. O que é que a minha forma de andar tem de diferente para ser reparado. Afinal de contas a meu ver andar deveria apenas ser uma forma de ir do ponto A ao ponto B e não um motivo de reflecção. Mas já que o é para os outros assim será agora para mim.

 

Um amigo elaborou um pouco mais sobre o que o meu andar tem de diferente. Andas com um ar determinado. Pois se eu determino que vou andar é para algum fim, logo o seu determinismo. Ninguém anda só por andar. Mas sei que é mais que isso. Sei que quando era mais nova andava muito de cabeça para baixo. Cresci muito depressa quando era criança, com treze anos já tinha a altura que agora tenho, um metro e setenta. Fazia-me em parte confusão e por isso sei que me encolhia. Fazia-me confusão porque durante muito tempo era a pessoa mais alta da minha turma. Mais alta que os rapazes inclusive. Por isso baixava a cabeça e encolhia os ombros. Nessa altura ninguém reparava na forma como andava. Talvez porque esperam que as mulheres sejam sempre pequenas, encolhidas. No entanto tomei consciência disso um dia e decidi tentar começar a olhar para a frente. Afinal de conta se tenho a altura que tenho não fazia sentido tentar ser mais pequena. Fazia sentido ser eu, com a minha altura, com os meus ombros largos, caminhar com os meus ombros direitos, cabeça direita, para a frente. E a partir daí passou a fazer confusão a muita gente. Passou a ser-me chamado a atenção no trabalho, na escola, em conversas com familiares e amigos.

 

Bem, depois disto dei por mim a pensar, será que se eu continuasse a andar encolhida, com a cabeça para baixo, me chamariam a atenção para a minha forma de andar? Ou apenas achariam normal. Talvez achassem normal, na medida em que as mulheres acabam sempre a ter de se encolher de uma forma ou de outra, dado vivermos ainda numa sociedade extremamente machista. Mas pensando nisso mais me dá a vontade de andar com a cabeça direita. Para a frente, como sempre é o caminho. E mesmo que faça confusão as pessoas não acho que deva mudar nada. O amor-próprio é uma coisa muito bonita e deve ser estimado.

21
Mar19

Sobre errar.

Hélia Pereira

Tenho uma tendência a me deixar consumir pelos meus erros, como se fossem irreversíveis. Mas acho que é um produto da cultura em que cresci. Ninguém incentiva ao erro, embora o erro seja muitas vezes o primeiro passo para aprendizagem.

 

Eu cresci sendo perfeccionista. Embora nos momentos em que me sinto mais consciente saiba que errar é natural, humano e saudável, no momento em que erro sinto-me miserável ao ponto de entrar em pânico as vezes. Hoje aconteceu-me duas vezes e ainda não recuperei. Ando a tirar a carta de condução e a levar muito a serio todos os erros que cometo. Embora o instrutor me tente relaxar e tentar abstrair disso, eu chego a casa a híper analisar todos os erros como se fossem o fim do mundo. E sei que não é saudável mas não sei como não o fazer. Como relativizar o erro quando se é perfeccionista?

 

Acredito que seja em parte uma questão de aceitação. No entanto com o passar dos anos e o aumento da maturidade em tantos outros campos da minha vida, esse aspecto parece que tem vido a piorar. E não sei exactamente como lidar com isso. Talvez expressar ajude, dado que coloco aqui a minha vergonha de errar em palavras. Amanha vou tentar não levar isto tão a serio, hoje já é tarde demais para isso.

15
Fev19

A internet não se esquece…

Hélia Pereira

Há dias o Facebook recordou-me que faço nove anos de vida no mesmo. No seguimento disso dei por mim a rever os meus post mais antigos e a ponderar sobre os mesmo e uma ideia surgiu. A internet não se esquece. Se antes podíamos ter vinte anos e dizer coisas palermas, e depois crescer e esquecer certas fazes menos boas, agora é impossível. Vai ser uma memória no Facebook que apenas serve para nos sentir-mos embaraçados de nós mesmos. E a realidade é que outras gerações antes das nossas tinham fases embaraçosas da vida. É normal, é natural e faz parte do crescimento. E tinha a possibilidade de crescer e esquecer de algumas coisas.

 

Actualmente vamos ser uma geração que vai viver com as fotos embaraçosas, comentários embaraçosos, fases de vida mais infantis e não vamos poder crescer das mesmas. Mesmo que vamos apagar coisas antigas embaraçosas no Facebook, há sempre os tags em fotos de amigos e menos amigos actualmente. E não sei ate que ponto isso não terá consequências negativas a longo prazo e afectar a forma como se desenvolve a nossa geração, a das redes sociais. Porque não temos direito a esquecer, dado que a internet não se esquece. Vamos ficar perpetuamente associados a ideias que já não são nossas.

 

E com tantos escândalos sobre comentários menos bons no passado, como foi o caso dos Óscares deste ano, apenas me leva a concluir que deveríamos ter direito a esquecer, a poder carregar num botão e desconectarmo-nos da pessoa que fomos, que não é a pessoa que somos agora, muito menos a pessoa que vamos ser amanhã. Mas mesmo que vamos eliminar as contas nas redes sociais, isso não elimina nada. Vai sempre haver vestigios daquilo que fomos nas redes sociais.

 

Uma das coisas que no meio disto ainda me preocupa mais é o caso das pessoas que colocam fotos dos filhos nas redes sociais. Para todos os efeitos eu era uma adulta quando aderi a rede. As crianças vão viver com um historico nas redes sociais sobre o qual não tem controlo consicente. E isso a meu ver é ainda mais preocupante que o meu embaraçoso Facebook de vinte e poucos anos.

02
Fev19

As vezes gostava de ser mais produtiva.

Hélia Pereira

Só que há algo maravilhosamente perverso em ter coisas que fazer e adiar. Em ficar impávida e serena a não fazer nada de produtivo num dia de folga, apenas porque se quer, apenas porque se pode. E as vezes não adianta ate usar tácticas que connosco resultam para aumentar a produtividade.

 

Hoje é um daqueles dias. Fiz exercício, bebi café e estou a ouvir música clássica há horas. No entanto em vez de fazer algo de útil, como ir escrever a minha tese não. O meu cérebro já deambulou por mil e um continentes de coisas inúteis. Desde filmes e series que já revi, mas que por algum motivo o meu cérebro me diz que apetece rever um pouco mais. Ou então simplesmente fazer insta stories das posições palermas que os meus gatos fazem ao sol, pelo facto de me dar tanto gozo apreciar a companha deles. Ou todas as coisas que eu poderia fazer e não faço.

 

Sinto que é um dilema de toda a gente. Para mim é um dilema de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Saber que tenho mais que fazer e escolher deliberadamente não o fazer. Culpo, quando a consciência me pesa um pouco mais, o facto da gripe ainda me estar a dar dores de cabeça literais. Depois sinto que devo ser franca comigo e sei que consigo ignorar os restos da gripe se quiser. Não me apetecer trabalhar na tese e ser meu prerrogativa não o fazer dado ser uma pessoa adulta, consciente e pagadora de impostos. Tenho a liberdade poder escolher não trabalhar na minha tese quando o devia fazer, porque estou no meu dia de folga do trabalho que me paga as contas e não me apetece.

 

Claro que sinto que isso pode dizer muito de mim, mal de mim ou bem de mim, consoante a lente que cada um usar para examinar isto. Eu sinto que estou apenas cansada e não me apetece fazer nada, mas o ter energia para fazer outras coisas faz-me sentir culpada. Ter energia para dissertar sobre a minha procrastinação em vez da minha tese. No entanto todo este testamento é apenas uma ode a minha humanidade. Talvez não me deva macerar tanto com isso e deva gozar o facto de estar de folga e rever um filme ou serie e não pensar mais sobre isso.

 

Fica aqui a banda sonora da minha preguiça, porque amo profundamente as composições de  Sergei Rachmaninoff e porque podem servir para inspirar a produtividade de outros.

 

11
Jan19

Medicina desfocada.

Hélia Pereira

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Hoje vim de uma consulta no optometrista. Sim vejo mal. Costumo dizer que não vejo tudo quanto quero, mas sei que esse é o tipo de cegueira que toda a gente tem. A minha nasceu comigo, cresceu comigo e agora come da minha carteira.

Mas desta vez não vim apenas com a factura de uns óculos novos que encomendei. Depois de uma conversa longa com a optometrista, vim com raiva. Raiva que não posso apontar o nome. Raiva que apenas posso transformar em mágoa. Porque ela disse-me que o meu problema de visão poderia não estar tão agravado se tivesse sido operada aos dois anos de idade em vez dos treze. Poderia não ser parcialmente cega de um olho como sou se tivéssemos outro sistema nacional de saúde.

Sei que os meus pais não têm culpa. Durante anos arrastaram-me para consultas duas vezes por ano no oftalmologista. Medico que me dizia que tinha de ser operada em todas as consultas. Medico que me dizia que não poderia ser para já. Os anos foram passando e nada. Os meus pais acabaram por ter de pedir favores a conhecidos para dar uma palavrinha com o médico, que finalmente me operou. Os meus pais fizeram o que toda a gente fazia. A optometrista contou-me de pessoas que tiveram de dar dinheiro ao médico por fora para poder ser operados. Aparentemente aqui é o que toda a gente faz. A alternativa é sair daqui.

Por isso o interior fica pobre. Pobre de dinheiro, pobre de vista. As pessoas que poderiam fazer alguma coisa para mudar só vêm bem ao perto, ao litoral. E ficamos nos de mãos atadas e a ver mal.

A raiva ainda não se foi. E ao ler coisas como a história do senhor Peças, o médico da INEM, ao menos posso canaliza-la para alguém. Só tenho pena é das pessoas que foram directamente afectadas com isso. Eu vejo mal, há quem tenha perdido a vida. Logo ate posso considerar que não estou assim tão mal. Mesmo assim contínuo com raiva, porque sei que tenho de viver com isto, com este conhecimento que poderia ser diferente. Assim resta-me ir mudando as lentes e esperar por dias em que se veja melhor.

 

 

17
Dez18

Aqui vamos outra vez.

Hélia Pereira

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Ola internet.

As vezes penso que hoje em dia eu não existo senão estiver online. Não sou real senão tiver a minha plataforma. E o estranho é que eu já fiz isto dos blogs. Já escrevi a minha poesia em blogs, quando não me preocupava com direitos de autor e estudos a bem dizer. Quando não me preocupava em mais que usar o meu blog como forma de desabafar as minhas mágoas e fazer das tripas coração para uma audiência que não existia, de forma a justificar a minha própria mágoa. Com o tempo isso passou, para bem da minha sanidade e apaguei os múltiplos blogs que criei.

A realidade de agora é que estou farta de escrever para o confinado do meu computador. Principalmente porque por mais palavras que use para descrever o que sinto, o que a minha persona de escritora sente a realidade é que o meu computador é um buraco negro sem fim. As coisas morrem lá. Que me adianta ter todas as palavras dentro de mim senão tenho presença online para além das redes sociais pessoais.

O que me levou a querer desabafar sobre o meu eu que quer ser escutado. O meu eu que quer ter uma voz na sociedade. O meu eu que quer partilhar o meu me torna igual e diferente dos outros. O meu eu que é comum e é invulgar ao mesmo tempo, como os outros. E penso que tenho muito mais que dar para os outros do que para os confins limitados do meu computador.

Tenho mais de mil palavras dentro de mim. E sinto que é melhor dize-las para uma audiência que não exista, do que guarda-las para mim. Para bem da minha sanidade.

 

Hélia Pereira.

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