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Maria não vai com as outras.

opiniões pessoais sobre tudo um pouco.

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12
Set19

O proverbial nó no cérebro.

Patrícia Pereira

Há algo de divinamente irónico em mim. A minha capacidade cega de acreditar nas minhas capacidades, que me manteve relativamente sã ao longo de alturas muito mais da minha vida. E também a minha capacidade divina para me auto-sabotar. A esta altura do campeonato, isto é, nos meus trinta anos de idade, acho que deveria já ter arranjado forma de equilibrar os dois, de forma a dar prioridade ao primeiro, e renegar o segundo para alturas em que deixaria o cansaço levar a melhor. Infelizmente não. E as vezes culpo coisas sem culpa, apenas para me justificar a mim mesma o porque de a segunda capacidade parecer levar a melhor, na maior parte das vezes.

 

Claro que a resposta anda em parte no facto de eu ter uma curiosidade mórbida por tudo, e num mundo repleto de informação é tão fácil ter acesso a tanta coisa, que o meu cérebro anda há anos num estado de perpétuo multitasking. E é para mim quase impossível concentrar-me só numa tarefa por mais de dez-quinze minutos sem dispersar. (E sim, é possível ter um trabalho em que se fala constantemente com outras pessoas e manter um discurso coerente enquanto se canta mentalmente uma música, ao mesmo tempo que se pensa num artigo que se leu sobre um novo projecto da NASA para colocar mulheres na Lua. Eu sei porque há anos que o faço.)

 

É no entanto difícil escrever uma tese ao mesmo tempo que se tem o cérebro noutra dimensão. E com isto me despeço e volto a tentar agarrar-me a minha tese. Mas sem chegar a nenhuma conclusão decente sobre o raciocínio acima descrito, se é que lhe podemos chamar raciocínio . Claro que aqui lembro-me de uma frase bonita que o meu irmão usa muito quando entramos em conversas mais profundas. Quem pensa demais não é feliz. Talvez seja esse o meu problema, perco demasiado tempo na auto-congeminação. Que por consequência acaba por se manifestar em problemas reais, porque lhes dediquei tempo a mais.

24
Jul19

Vicissitudes de trabalhar num call center.

Patrícia Pereira

Gostava de poder conseguir exprimir toda a minha frustração das últimas semanas em poucas palavras mas não consigo. Nem sequer vou tentar. Dei por mim a tentar analisar todas as más decisões da minha vida que me levaram a chegar a este trabalho com o qual me sustento e que no espaço de um mês passou de tolerável, para algo que me dá crises de ansiedade. E faço-o porque sinto-me presa num contrato de trabalho efectivo, numa altura da minha vida em que não estava sequer nos meus planos arranjar outro trabalho temporário: não só porque quero tentar arranjar algo mais motivador e dentro da minha área ao concluir o mestrado; também porque me aguentei a trabalhar num call center ate agora pensei que me tinha tornado já imune.

 

Ninguém vai parar a um call center em virtude de vocação. É uma questão de comodismo laboral, um trabalho com horários flexíveis que se adaptam a faculdade e outros part-times. É uma realidade que muitos dos meus colegas se revêm. Foi o meu caso, e dado que no início fazia algo diferente e minimamente interessante, dava apoio técnico, mesmo com os seus altos e baixos, deixei-me ficar. Na altura estava a concluir a licenciatura e faltavam duas cadeiras e foi uma questão querer adquirir independência financeira e compensar o atraso do final de curso aos meus pais. Quando conclui o curso e nada apareceu na área deram a possibilidade de fazer full time e lá me encostei. Os anos passaram e o contrato deixou de ser tão temporário. Quando decidi voltar a estudar deixaram-me voltar a part-time. Entretanto a empresa para a qual fazia suporte técnico rumou a outro cal center, há coisa de dois meses. Eu, juntamente com os meus colegas fui absorvida para uma campanha de telemarketing. E basicamente aí começou o meu martírio, o martírio do universo das vendas. Nem me quero alongar muito no porque, dado que é uma realidade difícil de explicar para quem está de fora e porque nada construtivo sairia disso.

 

O fruto da minha miséria tem sido gerir as minhas emoções no trabalho que estou a detestar fazer. Isso é gerir o facto de arranjar outro part-time agora que me desse as mesmas condições de trabalho seria impossível, especialmente assim de um dia para o outro. E o faco de estar a lidar com o stress da minha tese se ter arrastado para Setembro e sinto que isso deixou a minha vida no limbo. Sei que analisar tudo isto e tentar fazer sentido é provocar uma dor de cabeça em vão. No entanto é algo que me tem tirado o sono. Daí o desabafo. Acredito que não seja a única pessoa com trabalho que me deita abaixo. Acredito em dias melhores, porque eu já os tive, e porque ainda acredito que valha a pena lutar por eles.

 

Logo vou tentar manter a sanidade até Setembro. Depois logo se vê.

14
Jun19

A minha experiência com jejum intermitente.

Patrícia Pereira

Há dias estava a ver na Netflix a serie Resumindo, mais precisamente o episodio intitulado: “Porque falham as dietas”. E uma coisa que a meu ver falham e referir é o jejum intermitente, que de facto pode ser uma solução fácil de implementar, que cada vez mais se fala, mas que ainda não atingiu o mainstream como outra dieta. Antes demais dizer que eu não sou nutricionista, mas tenho formação em Bioquímica, logo quando comecei a ler sobre jejum intermitente muitas das coisas que falavam faziam sentido. Como funcionam as hormonas, como o nosso cormo armazena energia, como gasta energia.

 

Sempre fui uma pessoa para os padrões da sociedade “forte” mas com Índice de Massa Corporal (ou IMC), dentro de valores saudáveis, e apesar de olhar ao espelho e não gostar das coxas em tempos, sentia-me bem, com energia e sabia que tinha um peso saudável. Também nunca tive propriamente muita barriga, apenas quando estava com prisão de ventre, logo não havendo órgãos nas coxas sabia que aí a gordura não ia afectar propriamente a minha saúde. E desde os dezoito anos que o meu peso se manteve mais ou menos estável, variando as vezes dois kg para cima, dois para baixo, mas nunca mais do que isso. Hora em meados de 2017 resolvi voltar a estudar, meti-me num mestrado e ai o meu peso mudou um pouco. No primeiro semestre andava com horários meio loucos, quatro horas de aulas por dia, cinco horas de trabalho no meu parte time, mais duas a seis horas de trabalho por dia para a faculdade, dependendo dos dias e o resto das tarefas do dia-a-dia. Andava a mil a hora. Achei que deveria tomar pequeno-almoço novamente, coisa que me desabituara uma vez que antes trabalhava a tarde e noite e por norma a primeira refeição era o almoço, porque me levantava tarde e sentia-me bem. Isso mudou, porque com aulas as nove achei que deveria voltar a tomar pequeno-almoço, porque é aquela questão tradicional na nossa alimentação. Passado pouco tempo a minha fome ficou descontrolada. Fazia cinco ou seis snacks por dia, mais o almoço e jantar e estava sempre com fome. Apenas engordei dois kg, no entanto foi a fome constante que me fez perceber que havia algo que precisava de mudar. Isso e a minha indigestão constante, que era em parte motivada pelo stresse, mas que ficou fora de controlo. E quando há dores no estomago e intestinos e fome pelo meio é muito complicado gerir.

 

Comecei a fazer jejum intermitente no início do ano passado. O meu segundo semestre do primeiro ano de mestrado ficou muito simplificado. Passei a fazer três refeições, fazer o 16:8, isto é, jejum por 16 horas e comer num intervalo de 8 horas. A minha indigestão passou. As dores de estomago e intestinos passaram. Mas o melhor foi a fome constante passou. Sei que isso é devido a ter feito uma espécie de reset ao meu metabolismo. A primeira refeição voltou a ser o almoço e a ultima um lanche. Claro que poderão dizer que isto foi uma forma de restrição de calorias, mas não foi o caso. A diferença é que em vez de fazer mini snacks passei a fazer refeições maiores em menores períodos de tempo. Actualmente a maior parte dos dias faço duas refeições, almoço e jantar.

 

Claro, que os defensores tradicionais das três refeições por dia vão questionar isto. Já tive conversas sem sentido sobre alimentação, especialmente com uma colega de trabalho que está a fazer uma dieta bem restritiva em que corta com hidratos de carbono e come mini quantidades de comida. Em conversa percebi que o peso dela já oscilou em mais de vinte kg, para cima e para baixo, e que mal deixava de fazer a dieta o peso voltava. O meu peso voltou a estabilizar, perdi já quatro kg, e como hidratos de carbono e todos os grupos da pirâmide alimentar. Mas para mim o mais importante não é o peso mais os benefícios para a saúde. Para quem lê artigos científicos recomendo ir fazer umas leituras ao NCBI e vai poder ler sobre os efeitos positivos a reduzir danos nas células e tecidos associados ao envelhecimento e sedentarismo. Senão fica aqui um vídeo bem documentado sobre os efeitos positivos do jejum intermitente.

 

Para finalizar o livro que estou a ler do Daniel E. Lieberman fala muito sobre para o que é que nós estamos adaptados. E a alimentação é um ponto muito persistente ao longo do livro, a questão é que não estamos propriamente bem adaptados para excesso de comida, daí os problemas com obesidade que há actualmente. Estamos adaptados para ter períodos de fome, daí a capacidade do nosso corpo para armazenar energias e queimar as mesmas pela gliconeogénese, em períodos de jejum. Se estivemos sempre a comer não damos tempo ao nosso corpo para entrar em gliconeogénese, a não ser que se faça exercício muito intensivo ou dietas com restrição calórica, onde invariavelmente vai haver fome constante. No jejum intermitente não há fome constante. Tive um período de quatro dias de adaptação e agora não tenho fome nas 16 horas de jejum, mesmo a trabalhar ou fazer desporto.

 

E acho que é importante perceber que pode ser o caminho certo para muitas pessoas. Não só por simplificar o dia-a-dia, por exemplo de manhã ficar mais meia hora na cama em vez de sair mais cedo para ter tempo para o pequeno-almoço. Mas porque conjugado com uma alimentação saudável e variada e um pouco de desporto é simples e não é uma dieta, é um estilo de vida.

06
Jun19

Mulher Virginal vs Gajo Transtornado.

Patrícia Pereira

Há uns tempos vi um Facebook, do filme After, que me fez comichão no cérebro. Reparei nele essencialmente pelo nome, porque não me era de todo estranho. Sendo eu uma frequentadora assídua de livrarias, já o tinha visto estampado na capa de um livro qualquer, não tendo porém a ideia do que se tratava. Fez-me confusão em parte porque me deu um deja vu de outros trailers, como o de Fifty Shades Of Grey e Twilight

 

O deja vu veio do que os três têm em comum, a imagem da heroína que é virginal, que se apaixona pelo homem misterioso. Isso faz-me imensa confusão no cérebro. Estes livros e filmes estão essencialmente feitos para apelar as mulheres, no entanto passam como ideal uma relação muito disfuncional. Nestes a mulher acaba por não ter inteiramente controlo das coisas que lhe vão acontecer, onde têm de sofrer como o caraças para acabar com o homem dos seus sonhos, que é o primeiro e único homem com o qual se envolvem fisicamente, acabando por isso por ser o homem dos seus sonhos por falta de comparação. Continua-se assim a promover uma ideia completamente absurda sobre relações, o que em parte contribui para que muitas mulheres achem que têm de estar em relações disfuncionais, porque a realidade é o que vêm retratado em todo o lado, e acham que isso é a norma.

 

Conheço demasiadas raparigas em relações disfuncionais. Já cortei relações com uma antiga amiga porque depois de o namorado a ter tratado tão mal, dela ter entrado em depressão ao ponto de estar de baixa vários meses. Eu e outras amigas temos tentado intervir para ela deixar a besta, mas ela acabou por voltar para o rapaz, e nada mudou. Ela ficou chateada comigo porque eu criticava o tempo todo o rapaz em questão, porque a fazia constantemente sofrer e era e é uma besta. Passávamos quase todo o tempo que tínhamos em conjunto a discutir a relação disfuncional dela. Acabei por isso por me afastar, dado que ela não me dava ouvidos e preferia continuar sempre na merda. Essa rapariga leu Fifty Shades Of Grey, e todos os livros dessa saga e adorava os mesmos. 

 

Falo constantemente de este e outros casos de amigas e conhecidas em relações disfuncionais, com outra amiga que têm um feedback semelhante de amigas e conhecidas em relações disfuncionais. É uma luta ingloria. Torna-se impossível fazer ver a razão nesses casos, as raparigas em questão parecem cegas e surdas, e desprovidas de capacidade de raciocinio. As vezes por ter ilusões sobre o que constitui a relação e de estar em parte programada para achar normal situações de maus tratos. Outras vezes por achar que tem alguma responsabilidade em cuidar da besta em questão, porque ele não é sempre assim. Acho que é muito importante reter de uma vez por todas que nós mulheres não temos de salvar o homem. Se eles são bestas imaturas, impulsivas e dadas a maus tratos não é nossa responsabilidade de os por no sítio. Não é suposto sermos mães ou terapeutas para os nossos parceiros a tempo inteiro. O pressuposto de uma relação é ser algo benefico para os dois, não algo em que uma parte sobre a maior parte do tempo e a outra beneficia.

 

Sei que é parte este tipo de historias acontecem pelo patriarcalismo, que esta ainda generalizado na nossa sociedade. Acho que é por isso importante haver menos representação deste estereotipo na cultura pop, a mulher virginal e o gajo transtornado, seja porque motivo for.  Nós, mulheres, merecemos melhor que isso.

15
Mai19

Por favor, não alimentem os influencers.

Patrícia Pereira

O título desde post é inspirado na expressão “please do not feed the models”. Se bem que a meu ver a interpretação desse título deve ser a letra, ao contrário da dessa expressão. Actualmente vivemos bombardeados de figuras, aka influencers, que existem meramente para nós vender coisas. Especialmente e nós, mulheres. E é fácil perceber o porque de ser a nós mulheres, porque somos invariavelmente mais susceptíveis, com toda a pressão social para corresponder a uma certa expectativa de imagem. E é cada vez mais um flagelo a meu ver, especialmente no que toca a questão da dermocosmética e alimentação. Mas este post para já não é sobre a alimentação, mas sim sobre a dermocosmética.

 

Ainda me lembro de ler blogs de moda na minha adolescência. Na altura eram essencialmente estrangeiros e ainda não estavam monetizados como estão hoje os posts do instragram. Seguia atentamente na altura algumas bloguers que usavam marcas de farmácia e de supermercado e a opinião delas era sincera, falavam do bom e do mau e do porque de usar produto x ou y, sem nenhum disclamer de #ad ou “cedido gentilmente pela marca”. Hoje em dia é difícil acreditar na opinião de alguém quando são convidadas a testar e a dar a sua opinião sobre um produto, ou tem o belo do hashtag de ad, ou a expressão de ou “cedido gentilmente pela marca”. Porque o único motivo de terem a oportunidade de testar um produto e dar a sua opinião sobre o mesmo é o facto de haver uma audiência que provavelmente vai se sentir directa ou indirectamente coagida a comprar esse mesmo produto. E já nem vou falar daqueles casos flagrantes em que nem seque usam o produto mas apenas o publicitam.

 

E o que me preocupa mais e que há pessoas que caem nessas falacias, normalmente acabam sempre por ser as pessoas mais fragilizadas, normalmente mulheres com baixa auto-estima. As mulheres tendem a estar em contacto com mais químicos do que os homens em geral, pela preocupação desmesurada com a aparencia e isso não é de todo benéfico para a saúde. Muito menos a questão das embalagens, mas já nem vou por ai. Incentivar o consumismo desmesurado é prejudicial em todas as formas. E a realidade é que não há nada que resulte a cem por cento contra o envelhecimento, não há creme anti-rugas que nos valha. E a saúde da pele está essencialmente relacionada com a alimentação, consumo de água de forma suficiente, sono, hábitos de exercício e ritmo de vida essencialmente.

 

Há dias li um artigo muito interessante na Vice, intitulado de The Rise of the Minimalist Skincare Routine. Essencialmente fala de pessoas que usavam demasiados produtos para o rosto e como isso trazia mais irritação para a pele do que benefícios e como após uma consulta no dermatologista passaram a usar menos. Revi-me muito nesse post porque eu já o fazia desde sempre, mas usando o velho ditado da minha mãe de “tudo o que é demais é erro”. A realidade é que uso esse ditado para muitas das coisas do meu dia-a-dia e assenta que nem uma luva. Uso produtos para a pele, não vou mentir. No entanto não compro cremes de quarenta ou mais euros publicitados por influencers. Sim porque as influencers não são mais nada senão outra forma de publicidade.

 

De manha e a noite não perco mais do que cinco minutos no espelho. E parte desse tempo é a escovar o cabelo ou lavar os dentes ou então a perder um tempo a apreciar-me ao espelho, porque faz bem a alma olhar a nos mesmo e pensar “coisa linda”. Uso produtos de farmácia, de supermercado e de marca branca. No rosto ponho pouca coisa e tiro ainda menos, dado que não uso maquiagem, e a minha pele nunca esteve melhor. Já começam a aparecer as rugas de expressão em algumas zonas mas faz parte da vida. E eu abraço-as, assim como a sardas, a celulite e estrias.

 

Acredito que nós, mulheres não devemos seguir o que sociedade nós impõe e perder tanto tempo ao espelho, quando pudemos usar esse tempo para coisas mais construtivas. Os homens não o fazem e por norma são muito menos miseráveis que nós e com melhor auto estima. O amor-próprio não se compra nas farmácias e perfumarias. Aí apenas se alimenta as influencers.

06
Mai19

Mulheres contra Mulheres.

Patrícia Pereira

Se há coisa que quem me conhece sabe que eu digo com frequência é a expressão - "a mulher é um bicho terrível". Não o digo no sentido pejorativo, afinal de contas eu sou uma mulher. Mas no sentido que nós, mulheres, não somos por norma boas umas para as outras. Somos as primeiras a apontar alguma coisa mal nas outras, em vez de nos apoiarmos, na medida em que ainda somos na maior parte uma segunda categoria de ser humano. Não somos um homem branco, que continua a estar no topo da nossa cadeia alimentar.

 

E ontem dei por mim a pensar nisso porque eu por norma tenho um grande amor-próprio. Sou moça de me olhar ao espelho e apreciar o meu corpo por aquilo que é. Apesar das minhas coxas largas já me terem lixado a auto estima anteriormente, dos meus ombros largos também, da minha pele branca e com sardas também. Actualmente vejo cada vez mais o meu corpo como parte da minha identidade. O que me faz semelhante à minha mãe e três irmãs. Todas nos de ombros largos e coxas largas, mas todas nós mulheres fortes, tanto de personalidade como força física. Sou filha de agricultores e aprendi a usar o meu corpo para o trabalho duro, e muito embora quando era pequena detestasse, actualmente aprecio imenso as marcas que esse trabalho deixou no meu corpo. Tenho bastante força física, bastante mais que o meu namorado ate, e não acho que isso faça menos mulher de mim, muito pelo contrário. Embora isso não corresponda ao estereótipo de mulher.

 

No entanto ontem, num almoço do dia da mãe com a família dele tive de confrontar as minhas inseguranças. Porque as mulheres da família dele são muito mais femininas. São mulheres de coxas estreitas e ombros estreitos, ate menos peito que eu. São mais as mulheres das revistas de moda, pequenas e maquiadas e vestidas com roupas femininas e saltos altos. Eu, nas minhas calças de ganga, camisa de corte masculino, mocassins e zero maquilhagem senti-me uma espécie de aberração. Senti-me observada por elas, como quem reprova as minhas escolhas e espera mais para o irmão, tio e filho delas.

 

E disse-lhe isso a ele. Em parte por vergonha, em parte porque precisava de desabafar, para não deixar que aquele pensamento que lixasse o dia. Se bem que invariavelmente tornou-se o pensamento que dominou o meu dia. Não que as mulheres da família dele tenham feito alguma observação, em parte já se habituaram a minha diferença. Mas olharam da forma que olharam, porque nós mulheres somos formatadas dessa forma. Para nos criticar a nós, para nos criticar-mos umas as outras. Para nós sentir-mos perpetuamente miseráveis. Assim aderimos as modas, de forma a mudar quem somos. Compramos todos os produtos que nós vendem para sermos quem não somos.

 

Hoje acordei mais lucida. Voltei a olhar-me ao espelho e apreciar o meu corpo. Mentalizei-me que não faz bem nenhum continuar com esse ciclo vicioso. E que em vez disso devia amar as minhas coxas largas, os meus ombros largos e fortes, os meus braços e pernas musculadas. Porque é o corpo da minha mãe. É o corpo das minhas três irmãs. Não é um corpo de revista de moda. É um corpo real. Foi moldado por gerações da minha família, de mulheres que trabalharam no campo e que viveram naquele clima frio do norte. Todas pálidas de pele, todas fortes de ombros e coxas largas. E isso é a minha identidade. É a identidade da minha família.  É a identidade das minhas tias e primas. É a identidade das minhas avós. E das mulheres da minha família que nunca conheci. E isso é mais importante que me comprar a outras mulheres com corpos diferentes que foram moldados por situações diferentes de vida.  

 

A elação mais importante que tirei disto foi amar-me. Cuidar de mim, da minha saúde física e mental. É a minha religião actualmente. Custou a chegar a onde cheguei, já tive um ódio enorme a pele que hábito, mas isso foi noutro tempo. Essa pessoa já não existe, felizmente. E por isso posso dar-me ao luxo de ter um momento de fraqueza. Afinal de contas tenho pessoas que me amam e é tudo o que importa nesta vida. E é por isso minha obrigação amar-me a mim.

26
Abr19

Uma ode ao cansaço.

Patrícia Pereira

O cansaço é um filho da mãe. Mas ao mesmo tempo é algo que nós trás invariavelmente para o planeta terra e revela por fim as coisas verdadeiramente importantes. Durante as ultimas semanas andei a tratar de mudanças. Mudei de casa finalmente, troquei o T1 no centro da cidade pelo T2 nos arredores e estou convicta que terá sido uma das melhores decisões que poderia ter tomado. Não tive capacidade de escrever, ou vontade ate nos últimos tempos, dado que no final do dia, depois de caixas de coisas e trabalho pelo meio, tudo o que ansiava era por cama, comida e um bocado de tempo para não ter de pensar, e contemplar o vazio da casa antiga, o caos da casa nova.

 

Finalmente esta tudo no sitio. A mobília velha, a nova, as coisas que ficaram e muitas das quais me desfiz nas mudanças. E irónico que uma pessoa apenas tem a real consciência das coisas que têm quando temos de as enfiar em caixas para as mudar de local. Pensei muito sobre sustentabilidade nestes tempos de andar com as tralhas as costas. Pensei muito sobre o que compro, sobre a forma como compro. E no final destas mudanças percebi que menos é mais. Especialmente em coisas como roupa, calçado, loiça. Coisas que por vezes compramos porque é barato, ou porque achamos que precisamos. No final de contas são pilhas de coisas que acabamos de rejeitar no final, quando nos mudamos. Senão nos mudarmos são pilhas de coisas no sótão que não servem para nada, e das quais só nos lembramos de vez em quando nas limpezas.

 

Por isso quando a coisa acalmou e dei por mim com os cheques prendas de anos ainda para gastar e fiz o oposto do que fazia, comprei menos por mais. E não é que eu fosse já uma compradora impulsiva, sempre fui muito moderada nessas coisas, sempre cresci com pouco e a pouco me habituei. Mesmo assim acumulei coisas a mais, coisas que não uso e não servem para qualquer função. E senti em parte vergonha, porque estava a falhar. No entanto no meio da desarrumação e do cansaço fiz paz com isso, paz comigo mesma, e prometi tentar ser melhor.

 

Nesta semana tive tempo, um pouco mais de tempo. Andei a mudar um fecho a umas calças, a apertar umas que me estavam largas, mudei os botões a um casaco que não usava muito por não gostar dos botões. Coisas que estavam a um canto, sem função, que agora têm uma nova vida. Gostava de rematar este parágrafo de uma forma mais bonita mas ainda estou um pouco cansada. A minha criatividade parece ter-se esgotado estas semanas de mudanças. Acredito que vá voltar. Até lá vou reutilizar, reduzir e reciclar.

05
Abr19

Fiz trinta, e depois?

Patrícia Pereira

Fiz trinta faz umas semanas. E ao contrário do que antecipava, não foi o fim do mundo. Fez-me bem mais confusão fazer vinte e nove o ano passado. Passei este último ano a pensar em todas as coisas que eu achava que deveris ter feito aos trinta e não tenho. Todas as metas que achava que tinha de atingir, não sei porque ou para quem. A questão é que a vida não é uma corrida, ninguém vive de metas, embora em parte as estabelecemos como motivação. Se ninguém tiver objectivos qual é o sentido de ir trabalhar, estudar, namorar, viver.

 

Não fiz nada de especial nos meus anos. Era dia de semana. O comum do mortal tem um dia bem genérico a uma segunda-feira. Eu tive também, se exceptuar as mensagens e chamadas de amigos e familiares. De resto não fiz festa, não comi bolo, não apaguei velas. Em vez disso aproveite o facto de ter tirado o dia para tratar de aborrecimentos. Vou mudar de casa este mês e por isso aproveitei para tratar de burocracias de contadores para a casa nova. Foi por isso um dia produtivo. Apenas perdi cinco minutos para comprar um novo protector solar de rosto dado o meu actual estar a acabar, e dei por mim de forma inconsciente a escolher um diferente do habitual. Em vez de FPS 50+, FPS 50+ anti-rugas. Ri-me sozinha a olhar para embalagem, o meu subconsciente a pregar-me uma partida.

 

Sei que fiz anos e não cumpri nenhumas metas para este aniversário. Eu não estou a correr contra ninguém, apenas corro contra a minha própria mortalidade, como qualquer outra pessoa. E somos bem insignificantes no universo das coisas. E tenho amigos, família, dois gatos e um companheiro, saúde e energia quanto basta, logo não estou assim tão mal. Há pessoas com vidas bem mais complicadas. Porque raio tinha eu tantas reticências quanto aos meus trinta? Tudo na mesma, apenas mais FPS 50+ anti-rugas.

31
Mar19

Um andar esquisito.

Patrícia Pereira

Já alguém fez um comentário sobre a forma como andam? Bem a mim volta e meia acontece-me. Normalmente sempre da mesma forma, “Tens uma forma de andar esquisita”. Bem que eu saiba não existe uma métrica para avaliar a forma de andar. Logo o “andar esquisita” remete sempre para o diferente. As pessoas têm sempre uma opinião sobre o que é diferente. E por isso dei por mim a reflectir nisso. O que é que a minha forma de andar tem de diferente para ser reparado. Afinal de contas a meu ver andar deveria apenas ser uma forma de ir do ponto A ao ponto B e não um motivo de reflecção. Mas já que o é para os outros assim será agora para mim.

 

Um amigo elaborou um pouco mais sobre o que o meu andar tem de diferente. Andas com um ar determinado. Pois se eu determino que vou andar é para algum fim, logo o seu determinismo. Ninguém anda só por andar. Mas sei que é mais que isso. Sei que quando era mais nova andava muito de cabeça para baixo. Cresci muito depressa quando era criança, com treze anos já tinha a altura que agora tenho, um metro e setenta. Fazia-me em parte confusão e por isso sei que me encolhia. Fazia-me confusão porque durante muito tempo era a pessoa mais alta da minha turma. Mais alta que os rapazes inclusive. Por isso baixava a cabeça e encolhia os ombros. Nessa altura ninguém reparava na forma como andava. Talvez porque esperam que as mulheres sejam sempre pequenas, encolhidas. No entanto tomei consciência disso um dia e decidi tentar começar a olhar para a frente. Afinal de conta se tenho a altura que tenho não fazia sentido tentar ser mais pequena. Fazia sentido ser eu, com a minha altura, com os meus ombros largos, caminhar com os meus ombros direitos, cabeça direita, para a frente. E a partir daí passou a fazer confusão a muita gente. Passou a ser-me chamado a atenção no trabalho, na escola, em conversas com familiares e amigos.

 

Bem, depois disto dei por mim a pensar, será que se eu continuasse a andar encolhida, com a cabeça para baixo, me chamariam a atenção para a minha forma de andar? Ou apenas achariam normal. Talvez achassem normal, na medida em que as mulheres acabam sempre a ter de se encolher de uma forma ou de outra, dado vivermos ainda numa sociedade extremamente machista. Mas pensando nisso mais me dá a vontade de andar com a cabeça direita. Para a frente, como sempre é o caminho. E mesmo que faça confusão as pessoas não acho que deva mudar nada. O amor-próprio é uma coisa muito bonita e deve ser estimado.

21
Mar19

Sobre errar.

Patrícia Pereira

Tenho uma tendência a me deixar consumir pelos meus erros, como se fossem irreversíveis. Mas acho que é um produto da cultura em que cresci. Ninguém incentiva ao erro, embora o erro seja muitas vezes o primeiro passo para aprendizagem.

 

Eu cresci sendo perfeccionista. Embora nos momentos em que me sinto mais consciente saiba que errar é natural, humano e saudável, no momento em que erro sinto-me miserável ao ponto de entrar em pânico as vezes. Hoje aconteceu-me duas vezes e ainda não recuperei. Ando a tirar a carta de condução e a levar muito a serio todos os erros que cometo. Embora o instrutor me tente relaxar e tentar abstrair disso, eu chego a casa a híper analisar todos os erros como se fossem o fim do mundo. E sei que não é saudável mas não sei como não o fazer. Como relativizar o erro quando se é perfeccionista?

 

Acredito que seja em parte uma questão de aceitação. No entanto com o passar dos anos e o aumento da maturidade em tantos outros campos da minha vida, esse aspecto parece que tem vido a piorar. E não sei exactamente como lidar com isso. Talvez expressar ajude, dado que coloco aqui a minha vergonha de errar em palavras. Amanha vou tentar não levar isto tão a serio, hoje já é tarde demais para isso.

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