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Maria não vai com as outras.

opiniões pessoais sobre tudo um pouco.

Maria não vai com as outras.

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06
Jun19

Mulher Virginal vs Gajo Transtornado.

Patrícia Pereira

Há uns tempos vi um Facebook, do filme After, que me fez comichão no cérebro. Reparei nele essencialmente pelo nome, porque não me era de todo estranho. Sendo eu uma frequentadora assídua de livrarias, já o tinha visto estampado na capa de um livro qualquer, não tendo porém a ideia do que se tratava. Fez-me confusão em parte porque me deu um deja vu de outros trailers, como o de Fifty Shades Of Grey e Twilight

 

O deja vu veio do que os três têm em comum, a imagem da heroína que é virginal, que se apaixona pelo homem misterioso. Isso faz-me imensa confusão no cérebro. Estes livros e filmes estão essencialmente feitos para apelar as mulheres, no entanto passam como ideal uma relação muito disfuncional. Nestes a mulher acaba por não ter inteiramente controlo das coisas que lhe vão acontecer, onde têm de sofrer como o caraças para acabar com o homem dos seus sonhos, que é o primeiro e único homem com o qual se envolvem fisicamente, acabando por isso por ser o homem dos seus sonhos por falta de comparação. Continua-se assim a promover uma ideia completamente absurda sobre relações, o que em parte contribui para que muitas mulheres achem que têm de estar em relações disfuncionais, porque a realidade é o que vêm retratado em todo o lado, e acham que isso é a norma.

 

Conheço demasiadas raparigas em relações disfuncionais. Já cortei relações com uma antiga amiga porque depois de o namorado a ter tratado tão mal, dela ter entrado em depressão ao ponto de estar de baixa vários meses. Eu e outras amigas temos tentado intervir para ela deixar a besta, mas ela acabou por voltar para o rapaz, e nada mudou. Ela ficou chateada comigo porque eu criticava o tempo todo o rapaz em questão, porque a fazia constantemente sofrer e era e é uma besta. Passávamos quase todo o tempo que tínhamos em conjunto a discutir a relação disfuncional dela. Acabei por isso por me afastar, dado que ela não me dava ouvidos e preferia continuar sempre na merda. Essa rapariga leu Fifty Shades Of Grey, e todos os livros dessa saga e adorava os mesmos. 

 

Falo constantemente de este e outros casos de amigas e conhecidas em relações disfuncionais, com outra amiga que têm um feedback semelhante de amigas e conhecidas em relações disfuncionais. É uma luta ingloria. Torna-se impossível fazer ver a razão nesses casos, as raparigas em questão parecem cegas e surdas, e desprovidas de capacidade de raciocinio. As vezes por ter ilusões sobre o que constitui a relação e de estar em parte programada para achar normal situações de maus tratos. Outras vezes por achar que tem alguma responsabilidade em cuidar da besta em questão, porque ele não é sempre assim. Acho que é muito importante reter de uma vez por todas que nós mulheres não temos de salvar o homem. Se eles são bestas imaturas, impulsivas e dadas a maus tratos não é nossa responsabilidade de os por no sítio. Não é suposto sermos mães ou terapeutas para os nossos parceiros a tempo inteiro. O pressuposto de uma relação é ser algo benefico para os dois, não algo em que uma parte sobre a maior parte do tempo e a outra beneficia.

 

Sei que é parte este tipo de historias acontecem pelo patriarcalismo, que esta ainda generalizado na nossa sociedade. Acho que é por isso importante haver menos representação deste estereotipo na cultura pop, a mulher virginal e o gajo transtornado, seja porque motivo for.  Nós, mulheres, merecemos melhor que isso.

05
Abr19

Fiz trinta, e depois?

Patrícia Pereira

Fiz trinta faz umas semanas. E ao contrário do que antecipava, não foi o fim do mundo. Fez-me bem mais confusão fazer vinte e nove o ano passado. Passei este último ano a pensar em todas as coisas que eu achava que deveris ter feito aos trinta e não tenho. Todas as metas que achava que tinha de atingir, não sei porque ou para quem. A questão é que a vida não é uma corrida, ninguém vive de metas, embora em parte as estabelecemos como motivação. Se ninguém tiver objectivos qual é o sentido de ir trabalhar, estudar, namorar, viver.

 

Não fiz nada de especial nos meus anos. Era dia de semana. O comum do mortal tem um dia bem genérico a uma segunda-feira. Eu tive também, se exceptuar as mensagens e chamadas de amigos e familiares. De resto não fiz festa, não comi bolo, não apaguei velas. Em vez disso aproveite o facto de ter tirado o dia para tratar de aborrecimentos. Vou mudar de casa este mês e por isso aproveitei para tratar de burocracias de contadores para a casa nova. Foi por isso um dia produtivo. Apenas perdi cinco minutos para comprar um novo protector solar de rosto dado o meu actual estar a acabar, e dei por mim de forma inconsciente a escolher um diferente do habitual. Em vez de FPS 50+, FPS 50+ anti-rugas. Ri-me sozinha a olhar para embalagem, o meu subconsciente a pregar-me uma partida.

 

Sei que fiz anos e não cumpri nenhumas metas para este aniversário. Eu não estou a correr contra ninguém, apenas corro contra a minha própria mortalidade, como qualquer outra pessoa. E somos bem insignificantes no universo das coisas. E tenho amigos, família, dois gatos e um companheiro, saúde e energia quanto basta, logo não estou assim tão mal. Há pessoas com vidas bem mais complicadas. Porque raio tinha eu tantas reticências quanto aos meus trinta? Tudo na mesma, apenas mais FPS 50+ anti-rugas.

11
Jan19

Medicina desfocada.

Patrícia Pereira

Spectacles_(PSF).png

Hoje vim de uma consulta no optometrista. Sim vejo mal. Costumo dizer que não vejo tudo quanto quero, mas sei que esse é o tipo de cegueira que toda a gente tem. A minha nasceu comigo, cresceu comigo e agora come da minha carteira.

Mas desta vez não vim apenas com a factura de uns óculos novos que encomendei. Depois de uma conversa longa com a optometrista, vim com raiva. Raiva que não posso apontar o nome. Raiva que apenas posso transformar em mágoa. Porque ela disse-me que o meu problema de visão poderia não estar tão agravado se tivesse sido operada aos dois anos de idade em vez dos treze. Poderia não ser parcialmente cega de um olho como sou se tivéssemos outro sistema nacional de saúde.

Sei que os meus pais não têm culpa. Durante anos arrastaram-me para consultas duas vezes por ano no oftalmologista. Medico que me dizia que tinha de ser operada em todas as consultas. Medico que me dizia que não poderia ser para já. Os anos foram passando e nada. Os meus pais acabaram por ter de pedir favores a conhecidos para dar uma palavrinha com o médico, que finalmente me operou. Os meus pais fizeram o que toda a gente fazia. A optometrista contou-me de pessoas que tiveram de dar dinheiro ao médico por fora para poder ser operados. Aparentemente aqui é o que toda a gente faz. A alternativa é sair daqui.

Por isso o interior fica pobre. Pobre de dinheiro, pobre de vista. As pessoas que poderiam fazer alguma coisa para mudar só vêm bem ao perto, ao litoral. E ficamos nos de mãos atadas e a ver mal.

A raiva ainda não se foi. E ao ler coisas como a história do senhor Peças, o médico da INEM, ao menos posso canaliza-la para alguém. Só tenho pena é das pessoas que foram directamente afectadas com isso. Eu vejo mal, há quem tenha perdido a vida. Logo ate posso considerar que não estou assim tão mal. Mesmo assim contínuo com raiva, porque sei que tenho de viver com isto, com este conhecimento que poderia ser diferente. Assim resta-me ir mudando as lentes e esperar por dias em que se veja melhor.

 

 

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